Relatos de nossas infâncias
Depoimento de Joseildo
Depoimento de Joseildo
Lembro-me dos dias ensolarados, que após as tarefas diárias, preparava-me para ir a escola. Era tudo muito simples, porém com significados que guardo até hoje.
Morávamos em um pequeno sítio, com alguns animais dos quais tirávamos o sustento da família. Nesta época éramos sete irmãos, minha irmã mais velha Cleide, meu irmão Josenildo também mais velho, eu, a Rosa, o Josildo, a Neide e o Francisco, quase todos em idade escolar, porém só os dois mais velhos eram de certa forma os privilegiados, pois a escola ficava distante, e para chegar a tempo era necessário o transporte feito por um caminhão aberto, que aqui na cidade grande chamam de pau-de-arara. Como éramos pobres o meu pai só podia pagar duas cotas que contemplavam meus dois irmãos mais velhos, ficando eu e meus irmãos mais novos em casa cuidando dos afazeres domésticos que eram muitos.
Ao final do dia quando o sol se punha, voltávamos da roça, e nossa prima Berivone, muito generosa nos ensinava as primeiras letras, assim que acabávamos de nos banhar nas águas claras do belo riacho que cortava as matas do pequeno sítio onde morávamos. Neste ínterim, minha mãe sempre muito dedicada aos afazeres domésticos preparava a nossa janta que não tinha muito de especial, exceto o seu tempero que era de dar água na boca.
Chegávamos eufóricos para as aulas de minha prima, e neste momento, juntávamos-nos aos nossos irmãos que acabavam de chegar da escola. Eram momentos muito agradáveis, pois tínhamos muita curiosidade em ver e manusear os cadernos dos meus irmãos e por instantes de grande emoção desejá-los. E assim era a nossa rotina diária de segunda a sexta-feira, pois o sábado era dia de missa e lá estávamos novamente todos reunidos, agora também meu pai e minha mãe.
Essa rotina se repetira por alguns anos, porém chegou o dia em que fomos obrigados a vender o Sítio e partimos para a cidade vizinha, com muitas lágrimas, mas também com uma grande ansiedade de conhecer o novo, e também motivados pelas longas conversas com minha mãe que sempre lamentava o fato de não estarmos todos na escola. Meu pai, um agricultor, que embora muito rude e analfabeto tinha um grande conhecimento empírico, e não permitira perceber o fato de ser analfabeto, o que viria descobrir quando já na cidade eu frequentava a 4ª série primária. Mesmo sendo analfabeto não o impedia de participar do acompanhamento escolar de todos nós, tarefa essa, que fizera com muita precisão juntamente com minha mãe que era alfabetizada e escrevia muito bem.
Inicialmente nossa vida na cidade grande fora muito difícil, porém com a ajuda de minha avó - Dona Quitéria - uma senhora muito amável que ficara viúva quando minha mãe ainda tinha nove anos de idade, ficando com cinco filhas, conseguiu a duras penas tirar de uma máquina de costura o sustento de todas e, com tanto sucesso que conseguira agora ajudar-nos nas horas mais difíceis, durante o processo de adaptação à rotina da cidade.
Muitos anos se passaram, e meu pai conseguiu abrir uma pequena mercearia que aos poucos foi prosperando e conseguimos comprar novamente outro sítio, porém apenas para fazermos algumas plantações, e não voltamos mais a morar nele, pois os vínculos com a cidade já eram muito fortes.
Hoje passados vinte e seis longos anos, somos dez irmãos, todos formados na educação básica, outros com faculdades e eu, o único professor da família. Meu pai e minha mãe, ainda moram no agreste de Pernambuco, enquanto eu e os demais irmãos migramos para São Paulo, e nos emocionamos muito quando contamos essa história de vida tão bonita e marcante para todos nós.
Minha avó já não está mais conosco, pois em 1988, Deus a chamou. Apesar da grande falta que sentimos dela, resta-nos as grandes lições que nos ensinara ainda em vida.
Meu pai e minha mãe sempre que possível vêem nos visitar, e nós também temos o mesmo procedimento todos os finais de ano.
Essa é a minha experiência com a escrita a qual embora tenha muita dificuldade para escrever, pois fico emocionado ao relatar. Um grande abraço a todos e muito obrigado pela paciência. (Joseildo)
Depoimento de Karen
Quando me deparei com essa pergunta, sobre as minhas primeiras experiências em relação à leitura e escrita, fiquei pensando, pensando e não consegui me lembrar das minhas primeiras palavras escritas e nem do primeiro livro que li na minha vida escolar. Entretanto, buscando na minha memória, lembrei-me que desde muito pequena leio a Bíblia, também me recordei de uma parte na igreja, onde pela primeira vez decorei um versículo e recitei para todos. Continuei viajando pela minha memória e não poderia deixar de falar de uma pessoa muito importante na minha vida, a querida professora Irza, ela lecionou para mim na quarta série do Ensino Fundamental (no ano de 1996), uma pessoa doce, que tinha muito amor no que fazia, tinha uma paciência incomparável, ela possuía uma caixa de livros, livros de contos, de fábulas, entre outros, e toda semana escolhíamos um livro para ler em casa, assim na semana seguinte ela nos entregava uma folha de sulfite e escrevíamos a história que havíamos lido, fazíamos a ilustração e devolvíamos no final da aula, quando chegou no final do ano, ela nos entregou uma pasta, cheia das histórias, o nosso sentimento era como um troféu e somente quando recebemos essa pasta é que percebemos a quantidade de livros que havíamos lido naquele ano. Foi uma experiência muito boa, mas apesar de todo esse incentivo, a minha prática leitora e escritora não foi tão fácil assim, passado pouco tempo, toda vez que precisava escrever uma redação era um martírio, muitas vezes chorei em frente de uma folha, por não conseguir escrever sequer uma linha, e muitas vezes também, começava a ler um livro e não chegava na segunda página e eu já não estava compreendendo nada, não conseguia me concentrar. Mas, com muita força de vontade e muita dedicação, voltava e tentava me concentrar e assim foram realizados e alcançados todos os meus objetivos. (Karen)
Depoimento de Lucineia
Aprendi a ler em casa, sozinha, aos 6 anos de idade, através das cartilhas de meu tio, dois anos mais velho. A primeira palavra lida foi pão. Tive dificuldade pois não sabia o significado do til. Minha mãe, sentada em sua máquina de costura, me ajudou. Cheguei à primeira série já sabendo ler. Aos 8 anos minha mãe, com o pouco dinheiro da costura, comprou uma enciclopédia que continha dicionários da língua portuguesa, 3 livros com várias histórias infantis e diversos outros livros que vez ou outra eu os folheava. Claro que "devorei" os livros infantis inúmeras vezes. Pinóchio, Rapunzel, O Patinho Feio e Cinderela eram meus preferidos, mas foram somente esses durante toda a infância. Gibis e a coleção do Sítio do Pica Pau Amarelo eram os meus sonhos, mas nem ousava pedir em casa. Sabia que o orçamento era apertado. Também adorava ouvir músicas e escrevia as letras em um caderno específico. Ou ouvia os discos de meus tios centenas de vezes, ou ficava com caderno e caneta ao lado do rádio. Transcrevia todas as letras das "Paradas de Sucesso", um pouquinho por dia. Ter a letra completa era o triunfo. Depois de formada e já trabalhando como professora, pude realizar um pouquinho dos meus sonhos e cheguei a ter 6 assinaturas de revistas em casa. Mas estou num período em que ainda não me adaptei a nova rotina, com filho pequeno, e tenho alguns livros de cabeceira que ainda não consegui começar a leitura. Um com o meu nome "Lucineia" (ganhei de meu marido, mas a história não parece ser interessante) e outro "Compreendendo seu filho de 4 anos". As assinaturas das revistas estão suspensas neste período, mas de vez em quando ainda as compro em bancas. Hoje em dia, deixo a página inicial da internet em algum dos jornais conceituados. Esta prática de leitura de textos informativos me mantém atualizada sobre os acontecimentos recentes, o que é muito importante em nossa profissão. (Lucineia)
Lucineia, assim como você também tive um livro preferido! O meu é o PEIXINHO DOURADO, tenho até hoje ( isso que estou com 22 anos). A leitura quando semeada na infância traz recordações boas! Parabéns pelo Blog.
ResponderExcluirAbraço,
Clarice Silva
Adorei os depoimentos!
ResponderExcluirMiriam Gonçalves
Lucinéia! Adorei as sugestões de leitura. Um grande Abraço. Joseildo
ResponderExcluirOlá! Estava lendo novamente os depoimentos e vi quão grandes são as experiências de vida. Joseildo, você foi e é um grande guerreiro, muita dificuldade na infância, mas conseguiu vencê-las e hoje tenho certeza que suas batalhas são muito melhores encaradas e as consegue "tirar de letra". Parabéns a toda a família, são vencedores!
ResponderExcluir